Porquê viajar com as crianças?

Vale a pena voltar aos países onde já estivemos?

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“Não estive em todo lado, mas está na minha lista” (Susan Sontag)

É uma frase que faz todo o sentido, para a maioria dos apaixonados por viagens. O Mundo é tão grande, há tantos lugares fascinantes, e o tempo que temos é tão pouco! Cada lugar que conhecemos fica fora da nossa lista? Nós diríamos que sim. Mas a verdade é que, ultimamente, nos apetece lugares onde já estivemos. O mini-viajante fala muito de lugares onde já esteve. Não são todos. Claramente, há dois ou três que relembra constantemente. Quando lhe perguntam onde foram as últimas férias, responde no Sri Lanka… embora depois disso já tenha ido a mais 4 ou 5 países. Nestes não esteve de férias! (riso) foi uma passagem, e lembra-se mais das pessoas e de coisas muito específicas.

Quando ele me vê no computador, senta-se no meu colo e pede para ver os vídeos das viagens. Eu também gosto, e assim vamos mantendo vivas as imagens de cada lugar. Nestes momentos, sinto que este blogue, é também um álbum de memórias.

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Malásia primeira Ásia

Admito que tento evitar voltar a lugares, que já fui. Mas será que é mesmo uma perda de tempo (e dinheiro), regressar a um lugar onde já fomos e gostámos muito? Cada vez que fazemos uma viagem a um lugar que já conhecemos, não só interagimos mais com o sitio, mas também conhecemos mais sobre nós próprios. Fiquei a pensar nos bons motivos para regressar a um lugar:

Ver o quanto crescemos e o quanto cresceram os mini-turistas

Os lugares hoje em dia, não permanecem inalterados, como outrora. Mas quase tudo está lá,  incluindo a essência, cheiros e gastronomia. Ao voltarmos a um lugar que já conhecemos, apercebemo-nos que algo em nós está diferente. Os nossos miúdos, mais ainda! Para eles é quase como uma novidade absoluta, e vão reparar em coisas que não repararam quando eram pequenos e interagir muito mais.

Isto já me aconteceu em vários lugares. Uma delas, foi no Brasil na vila de Pipa, as memórias que tinha eram de uma vila pequena, única atração a praia, com uma vida nocturna intensa cheia de Argentinos, onde a água do mar era quente. Quando lá regressamos, com o mini-viajante com 6 meses, o facto da vila ser pequena foi muito agradável e facilitou imenso as deslocações. Com um bebé tivemos de interagir muito mais com a população, conversar sobre ingredientes, o que comem lá as crianças, etc. Um bebé atraí as pessoas e a boa-vontade. Isto tudo trouxe, o ambiente perfeito para explorar o potencial  deste “novo” lugar, e uma nova forma de viajar, optando por lugares calmos e longas sestas.

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Biberon de água de coco!

Ao regressar a este lugar cheio de memórias, pude reflectir e apreciar o quanto mudei.

O sentimento único de estar em casa e ao mesmo tempo numa aventura

Tenho uma grande ligação a Bali, quando estou lá, uso o mesmo sorriso do dia que cheguei pela primeira vez e senti o cheiro a incensos. Muitos restaurantes são os mesmos, sei que vou comer Nasi Goreng Ayam, com um sumo de fruta e que tenho de pedir para não colocarem açúcar. Sei que a praia de Balangan tem menos gente do que Kuta, a água é transparente, a senhora demora 45 minutos para me cortar um ananás, e ali sinto-me em casa. É muita boa esta sensação de familiaridade.

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Nasi Goreng – Bali

Nós, seres humanos, somos criaturas de hábitos. E enquanto um intervalo fora da nossa zona de conforto é muito importante, regressar a um lugar que adoramos estimula um sentimento de pertença, que é tão nostálgico, como reconfortante. Aquele sentimento avassalador de sermos estranhos num lugar que visitamos pela primeira vez, desaparece, e assim, mais relaxados permitimo-nos a mergulhar profundamente numa cultura e conhecer bem todos os cantinhos. É mesmo impressionante a diferença que, faz saber algumas frases naquela língua, não estar constantemente a fazer o câmbio mentalmente, olhar longos minutos para um Menu, ou andar perdidos nos transportes. Quando exploramos novos lugares há imensas coisas para lidar, e quando aliviamos esta logística, criamos espaço para realmente apreciar onde estamos.

Juntem uma criança a esta viagem: conhecem a comida, deslocam-se mais facilmente, sabem quais são os lugares melhores para estar com eles, conhecem o alojamento e não perdem tempo a contar o dinheiro, enquanto seguram com a outra mão uma mini-mãozinha desejosa de sair da loja. Não vos parece bem?

O Mundo está a mudar. Façam parte desta jornada.

Quando fui trabalhar para o Médio Oriente, o preconceito e a desinformação à minha volta era muita. Todos me avisavam de inúmeros perigos contra as mulheres, etc.

Previsivelmente, a perceção de quem está de fora e vê apenas as notícias na TV, e a realidade, são muito diferentes. Segurança não era sequer uma questão. E o choque cultural foi bem menor, do que imaginava. A beleza natural e cultural do lugar, superou as expectativas, enquanto que a construção massificada e megalómana estava em pleno crescimento. Todos os meses era inaugurado um novo edifício, uma praia, um centro comercial.

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Doha – Qatar

A cultura islâmica nunca mais me saiu do coração, aprendi imenso e partilho com os amigos sempre que surge a conversa. Podemos não nos identificar, mas respeitar e aceitar, faz parte da viagem. Ver o Mundo a mudar em frente aos nossos olhos, especialmente em países pouco desenvolvidos que tentam erguer-se de tempos difíceis, é uma hipótese única de testemunhar esta perspectiva de mudança da nossa envolvência.

Um ano levamos o nosso mini-viajante a um lugar em desenvolvimento e passado uns anos ele regressa lá, as fotos são impressionantes. Quem não gosta de ver estas diferenças?

Vão além do óbvio

A primeira vez que visitamos um lugar, é normal que visitemos as atracções mais turísticas, os lugares únicos. Mas na segunda vez que passamos por esse destino podemos ir mais longe, temos mais “liberdade” no roteiro, tempo para ver aquilo que não é turístico, lugares com muito menos pessoas e vivermos uma experiência mais autêntica na nossa viagem.

Lugares cheios de turismo, são lugares onde nunca relaxamos com os mini-viajantes: multidões, vendedores de pulseiras e outras “tralhas” que vão directamente às nossas crianças, é mais caro e a comida menos autêntica, trânsito intenso, etc.

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Camboja – Angkor Wat

Não deixem o medo paralisar-vos

Quando temos uma experiência avassaladora, num lugar em que nos conectamos instantaneamente, existe uma espécie de medo de regressar e perder-se a magia do lugar, porque já não vai ser a mesma coisa, já nada irá superar as nossas expectativas e vamos arruinar as nossas boas memórias.

Mas afinal medo do quê?! 

Vai ser igual ou melhor! Ou apenas diferente. Diferente, também é bom. Aliás, diferente de certeza, se agora regressamos com crianças ao colo. Vamos apreciar as coisas que já gostamos, mas pelos olhos dos nossos mini-travelbuddies.

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Balangan Beach

Há uma frese do Dalai Lama que diz “Uma vez por ano, vai a um lugar onde nunca tenhas ido“. Todos os lugares, são lugares que nunca fomos, porque este ano, somos um bocadinho diferentes do ano passado, e os lugares não permanecem iguais, há sempre uma nova luz, um novo café, um novo recanto.

Bons Passeios!

 

One Comment

  1. Essa sensação de familiaridade com um lugar é fantástica e muito reconfortante. Só não se pode regressar a um lugar na expectativa de reviver tudo da mesma forma (pessoas, lugares, experiências, emoções), porque isso é meio caminho para a desilusão. Vai ser bom, mas de maneira diferente.

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