Porquê viajar com as crianças?

Pais, deixem-me cair

” Sem joelhos esfolados ou cabeças partidas em brincadeiras de rua, as crianças vivem cada vez mais de consola na mão, fechadas em casa ou na escola, sempre sob a observação dos adultos, que se esforçam por reduzir ao mínimo qualquer risco.

As consequências já se fazem notar e geram preocupações entre os investigadores:

Os mais novos começam a sofrer de “iliteracia motora”

Sem autonomia, não aprendem a mexer-se. São muitos os que têm dificuldade em correr, saltar, desviar-se de obstáculos e até em defender-se com as mãos quando caem.

É cada vez mais nas atividades extra-curriculares de futebol que aprendem pela primeira vez a chutar ou na dança que percebem que é possível rodarem sobre si próprios, movimentos que se tornam incapazes de descobrir sozinhos porque o tempo de brincadeira espontânea é cada vez menor.

Com isso, estão a perder a variedade de movimentos necessária para poderem reagir perante situações inesperadas ou de risco.

Como a autonomia não é genética, mas uma aprendizagem, nesta guerra pelo desenvolvimento saudável quem não se mexe, sai derrotado.

É muito importante deixar os filhos caírem, assumir um determinado grau de risco. Está provado  que o cérebro humano evolui de acordo com as experiências a que é submetido – afirma Luís Paulo Rodrigues, diretor da escola Superior de Desporto e Lazer de Melgaço, (…)

Já reparou que os baloiços quase não baloiçam e que, por cada criança que brinca num parque, temos um pai ou uma mãe a segui-la em permanência? São os pais helicópteros, que estão em todo lado e dão aos filhos uma falsa sensação de segurança, inibindo-lhes a autonomia.

O professor explica ainda que, “como os animais, as crianças têm um sentido de autopreservação inato e aprendem a adaptar o risco que correm à confiança que sentem”, mas se viverem demasiado protegidas ou imersas no mundo virtual acabarão por não desenvolver esta capacidade. E dá como exemplo os mais pequenos que instintivamente descem as escadas de costas para não caírem, um cuidado que perdem quando vêm sempre os pais ou os avós sempre no fim dos degraus, prontos a segurá-los.

 

(…)

“Estamos preocupados com as limitações ao desenvolvimento das crianças porque assistimos à substituição cada vez mais precoce do contato a 3 dimensões pelos ecrãs a 2 dimensões e, simultaneamente, vemos um forte decréscimo das brincadeiras ao ar livre”, explica Frederico Lopes da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa.

A compreensão visual do espaço é das noções mais básicas

As crianças que são sempre transportadas sempre de automóvel e passam muitas horas a olhar para ecrãs acabam por ter uma visão sempre limitada por margens, mais a 2 dimensões.

Os docentes portugueses confirmam que as respostas estão nas brincadeiras ao ar livre, mas não nos parques normalizados, com chão almofadado, baloiços sem impulso e percursos previsiveis, desenhados a régua e esquadro. “Temos de reconectar as crianças com ambientes mais naturais, desafiantes e motivadores. É importante que se perceba que, quanto mais protegidos são os espaços, menos cautelosas elas serão. Devemos esforçar-nos por não interferir.

(…)

“A disponibilidade motora das crianças, jovens e por consequência, dos adultos tem vindo a diminuir drasticamente, se somos cada vez cada vez menos competentes para nos mexermos, somos cada vez menos autónomos”

Estamos constrangidos pelos nossos próprios corpos e as crianças ainda mais, pelos limites impostos pelos pais. As consequências só surgirão mais tarde, quando já adultas começarem a apresentar problemas de saúde decorrentes da falta de atividade, como obesidade, desequilíbrios emocionais e falta de resistência.

“A decadência de um corpo que não se mexe, não despende energia e não interage com outros corpos provoca desagregação social e desiquilíbrios de mecanismos internos que resultam em défices do estado mental. E será trágico porque estaremos a educar crianças inadaptadas para o futuro”, alerta o decano Carlos Neto.

Adriana Friedmann, frisa que é nos primeiros anos de vida que o bebé descobre o mundo, os objetos e as pessoas, a partir dos seus sentidos e do movimento. “A criança precisa de ser estimulada, nunca forçada, a movimentar-se e ser desafiada a experimentar, repetir e, assim, incorporar a diversidade de movimentos em prol da sua autonomia, não só física mas também cognitiva e emocional.”

 

Este texto é um excerto tirado do original com o mesmo titulo, publicado no Jornal expresso de dia 16 de Fevereiro de 2019. Um trabalho da jornalista Christiana Martins, que explica o projeto “Moving Learning Outsider” da iniciativa da Câmara de Torres Vedras e da Universidade de Lisboa.

O artigo completo, podem (e devem) ler diretamente neste link: Expresso Online 

jericoacoara
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